segunda-feira, maio 08, 2006

Querem crise? Tomem lá crise!


Depois de um àlbum que vende mais de 100 mil cópias só nos E.U.A. (The Cosmic Game - Fev.2005), a fasquia sobe de forma considerável. Mas não é nada de mais para quem sempre foi fiel ás suas origens e às linhas mestras do projecto Thievery Corporation (TC).
Contudo, e apesar do contínuo sucesso de vendas, a critica a cada àlbum é sempre a mesma, agravando-se na dureza e na agressividade. Já se diz que este àlbum poderia ter saído há 10 anos que ninguém notava. A vida de um artista é assim mesmo e Eric Hilton e Rob Garza, já devem estar bem habituados.
Para quem não sabe, estes americanos sempre foram defendidos no Deep Café, e esta vez não será excepção. A realidade é esta: os TC passam por um momento de falta de inspiração! É um facto! Mas não deixaram de fazer boa música! Um caso semelhante foi aqui retratado no blog, e que se passa com os britânicos Nightmares On Wax. Com os TC surgiu um novo trip-hop que angariou subditos em todo o mundo, e empolgou (e de que maneira) os amantes mais conservadores de Massive Attack e Portishead. A realidade (a meu ver) é que esta encruzilhada criativa tem uma explicação simples. Este àlbum é um passo ao lado e não em frente. Não é suposto ser uma novidade ou uma nova fase. É apenas o responder a um pedido que foi feito à medida que os TC iam crescendo e se iam notabilizando! As encomendas surgiram em própia mão por nomes como Norah Jones, Astrud e Bebel Gilberto, Isabelle Antena, entre outros, que queriam os seus temas com novas sonoridades, e em roupagens mais jamaicanas e brasileiras. Assim sendo, quem melhor que os TC? Todos conhecemos as suas obras que transpiram dub, reggae, hip-hop, bossa-nova e funk! Não há crise! Não se assustem!Não vejo este hiato como uma crise. É certo que há desgaste e pouca evolução, mas o lado positivo é revelado em remisturas raras nunca editadas, com o ecletismo como base comum.
Astrud Gilberto sai vencedor por K.O. pois "Who needs forever" é uma revigorante proposta plena de variações! A cada um deixo o critério de avaliação, mas em abono da verdade, temas como os de Nouvelle Vague e de Emilie Simon, ainda vão embalar muitas tardes de pôr-do-sol. Do único original incluído no disco, resulta uma bem sucedida parceria com a lenda do reggae Sister Nancy. É aqui que confiamos que o bloqueio criativo não será a fatalidade irremediável por muitos temida.
Aos já bem dissecados "Sounds from the Thievery Hi-Fi", "The Mirror Conspiracy", "The richest man in Babylon" e "The Cosmic Game", junta-se agora este "Versions", e que para quem precisa se confirmação será já apresentado ná próxima emissão do Deep Café. Boas visitas nas galerias do Deep Café...

quinta-feira, maio 04, 2006

El tango no muere!


No longínquo ano de 1998 surgiu um dos grandes projectos de musica electrónica que consegue cativar qualquer leigo, ou o mais distraído seguidor de música.
Foi pela ideia do guitarrista Eduardo Makaroff que tudo começou. Ele conhece Philippe Cohen-Solal, músico e fundador do selo discográfico Ya Basta!, que por aquelas alturas trabalhava com o suiço Christoph Müller. Um provém de Buenos Aires, e destacou-se no mundo do rock, mas ingeriu tango. Os outros dois são sócios há alguns anos, escultores de vinil e artífices de sons. Assim, decidem pôr em comum as suas habilidades com o propósito de elaborar uma síntese inédita, entre tango e música electrónica. Criam o nome: Gotan, inversão das sílabas de "tango", em alusão ao modo de falar que se usa tanto em Paris como em Buenos Aires.
Os dados estão lançados, e na boa verdade, o jazz de fusão deu um bom mote com exemplos práticos como St.Germain ou De-Phazz. Seria a vez do tango se insurgir no meio da electrónica actual.
Através de experiências com clásicos, como "Vuelvo Al Sur" de Astor Piazzolla, compositor que soube impôr o novo tango, decidem aproveitar o espírito, em detrimento das letras. Convocam uma equipa de entendidos: uma espanhola, uma violinista de formação clássica, um par de argentinos de París (Nini Flores no bandoneão e Gustavo Beytelmann no piano). Esta selecção teve o condão de abordar o desafío rítmico com as orientações adequadas. Só por sí, o dub será o factor de união indispensável, e a pedra fulcral que suportará todo o mecanismo de invenção e produção.
Depois de provetas e tubos de ensaio, consegue-se "Vuelvo Al Sur", com direito a um lado B, "El Capitalismo Foráneo". O desfile de grandes temas prossegue com "Tríptico", "Santa María (del Buen Ayre)", etc. Pressionados a lançar um àlbum surge"La Revancha Del Tango". Estamos no ano de 2001.
Mais tarde, em 2004, sai um DJ set de Gotan Project seleccionado e misturado por Philippe Cohen Solal.Durante a tourné (2001-2003), Philippe Cohen Solal desejou juntar grandes temas numa compilação « Inspiración • Espiración ». Este projecto reune dois temas originais de Gotan Project com tangos raros e funky, versões inéditas confrontadas com as novas tecnologias da música electrónica.
Agora em 2006, eles são os mesmos mas diferentes. Mais maduros, sóbrios, e com a experiência adquirida nos 5 anos de tourné pelo mundo, acumulada em aeroportos ou estúdios obscuros. O própio single de estreia -"Diferente"- o indica. Continuam grandes compositores com os mesmos pretextos melódicos que se inspiram nos maiores de todos os tempos como Carlos Gardel, que influencia o título do álbum, "Lunático" (o nome do cavalo de competição de Gardel). Para este novo álbum, o trío reforçou a sua colaboração com o pianista Gustavo Beytelmann, um argentino que vive em París há mais de 25 anos. Sem esquecer as canções e letras agri-doces que Cristina Vilallonga dá vida e voz. Mais um disco genial deste projecto franco-argentino que nos deixa a sensação que o tango não morreu! Reinventou-se como Lavoisier dizia: nada se perde, tudo se transforma!Estreia do àlbum "Lunático" já na próxima emissão do Deep Café, com claro destaque para o single "Diferente".

segunda-feira, abril 17, 2006

Reunião de bens adquiridos



Quando se começa um projecto musical, poucos conseguem adivinhar o seu futuro, e mesmo os mais optimistas não arriscam a cair no ridículo e na humilhação de um palpite exagerado. Há 15 anos atrás foi assim em Bristol. Uma banda que edita com sucesso repentino "Blue Lines", e que ninguém pensaria no início dos anos 90, que chegaria a este ponto, eleitos como os autores de uma estética e de uma linguagem pop, por vezes sombria mas sempre brilhante, e que se orienta pelas linhas mestras do hip-hop, reggae, soul, rock e downtempo.
Eles são os Massive Attack, uma banda de inglesa, pais do trip-hop britânico, a par dos Portishead. Oficialmente são compostos por 3D (Robert Del Naja) e Daddy G (Grant Marshall). Horace Andy tem uma importante participação em todos os álbuns da banda, assim como Nicolette. Realce para os ex-Massive Adrian "Mushroom" Vowles e Tricky, também eles consagrados na cena electrónica mundial. Apesar de fundados em 1987, só em 91 editam o primeiro álbum, seguido de "Protection" (1994), "Mezzanine" (1998), "100th Window" (2003), "Bullet Boy" (2005). Pioneiros no género, apenas dois nomes rivalizam com os autores de "Collected", os já referidos Portishead de Beth Gibbons, e a dupla de Washington Thievery Corporation.
Hoje em dia, 3D encontra-se cada vez mais isolado na criação do projecto. Mas nem sempre foi assim. As canções eram uma constante libertação, dando a entender existir uma linha condutora da madureza dos anos com a alma. Tornaram-se célebres as parcerias com nomes de luxo. Convidados de primeira classe, que se enquadravam na filosofia de cada tema. Contudo, depois de Shara Nelson, Tony Brian, Nicolette, Tracey Horn (Everything But The Girl), Elizabeth Fraser (Cocteau Twins), Sara Jay e Sinead O'Connor (isto já para não falar de Horance Andy ou de Tricky), a banda de Bristol conseguiu ser ainda mais caprichosa e convidar Terry Callier para cantar o seu novo single «Live With Me», que serve de amostra para este "Collected". O tema é simplesmente brilhante, com uma alusão óbvia às sonoridades de “Blue Lines”.
Além dos clássicos, encontramos lados B e raridades, e claro está, o DVD acoplado que nos concede um bilhete mágico para uma viagem pelo imaginário cuidado dos telediscos do grupo.

É esta a proposta da semana, com natural destaque no Deep Café de quarta-feira.

quinta-feira, abril 06, 2006

Com flamenco na veia


O Flamenco é uma arte do sul de Espanha, nomeadamente da Andaluzia. Divide-se em três partes que são o canto, o baile e a guitarra. As primeiras informações acerca desta forma de cultura datam do ano de 1774, quando Cadalso escreveu as "Cartas Marruecas" e atribui as culpas aos ciganos por esta peculiar forma de manifestação social e cultural.
Séculos depois, pelo ano de 2002, a transformação dá-se, e o flamenco reinventa-se! Surgem uns malaguenhos que fundem o flamento gitano com o chillout moderno. O resultado é "Flamenco Chill". Oito temas originais inseridos numa colectânea de música de inspiração flamenca. Daí saem grandes hinos como "Instinto Humano" e "Verde Mar".
De imediato são considerados os pais do FlamencoChill, em que as notas do flamenco se mesclam com os sons e ambientes do chillout e lounge. Impulsionados pelas mais de 90.000 cópias do primeiro álbum, partem para uma nova obra-prima. Finalizado em 2004, sai ao mercado "Endorfinas en la mente".
O que outrora foi um projecto arrojado e arriscado, passou com segurança e mestria a ser uma orientação na música electrónica actual. Melodias com raiz, elegância e frescura, tradição e modernidade. O fantástico "Ahí estás tu" imortalizou-se através de publicidades, colectâneas e expansão radiofónica! Como sempre o será, a música de novo demonstra como pode ser intemporal e se adapta sem pudores às novas exigências e modas. Atenção às vozes de Eva Jimenez e de Mari, cristalinas e limpas como as águas da costa andaluza. Realce para a continuidade dada em 2005 com o mais recente álbum da carreira dos Chambao "Pokito a poko". Em breve, e no seguimento da musica electrónica de fusão, o devido realce ao nosso projecto nacional e original Chillfado.

terça-feira, abril 04, 2006

I´m not a monkey...


Bonobo, o chimpanzé anão, é um primata oriundo do centro do continente africano. Bonobo, o artista da Ninja Tune, desde 1999 que colocou Brighton no mapa da cena musical electrónica. Simon Green, é o nome deste produtor, músico e Dj. Pouco ou nada podemos comparar entre estes dois seres, senão mesmo o facto de se encontrarem em vias de extinção. Com o calor e glamour dos filmes franceses dos anos 60, e o sabor do hip-hop horizontal, Bonobo, aglutina o melhor que ainda se faz na Ninja Tune com os últimos traços do chillout inteligente.
Tudo começou com a compilação "When Shapes Join Together", do selo Tru Thoughts Recordings. A Mute desafiou-o para voos mais altos, mas a confirmação da qualidade de Simon em "The Scuba EP" e do single "Terrapin", blindou definitivamente a saída desta editora. O progresso e evolução na Tru Thoughts e Ninja Tune resultam no álbum de estreia "Animal Magic". Como armas e argumentos, Bonobo apresenta downtempo de bom arcaboiço, dub de bom sangue, funk e low-fi q.b.. Beats de algodão, melodias indeléveis e evocações cinematográficas - Eis uma noite Bonobo!
O ano transacto foi lançado o álbum de misturas "Live Sessions EP", mas nem mesmo os vários Ep´s, singles e misturas ao vivo retiram a importância e protagonismo que "Dial 'M' For Monkey" consegue ter.
Músicos certos, escolhidos a dedo, ensaios pagos do própio bolso, e actuações ao vivo memoráveis são os ingredientes que fortalecem o sonho de um artista. Trabalhou no anonimato, o que lhe proporcionou a segurança suficiente para trabalhar à vontade. E depois dos shows em Glastonbury, The Big Chill, Jazz Cafe, e sets exóticos da Italia à Russia, a madurez bateu-lhe à porta! Novidades, muitas! Misturas pesadas de hip-hop, jazz em doses light, broken beats, Latin, e a funk e soul costumeira.

Mais uma sugestão Deep Café, que por mais tempo que passe, terá sempre na sua playlist o som terno e doce de Flutter. Regresso embalado a uma possível infância e meninice!

quarta-feira, março 22, 2006

África veio até nós!



Ainda hoje, na emissão do Deep Café, comentei o quão negro e soul soa este disco. Rodei "I am you" e no ar ficou aquela sensação Motown que caracterizou muitos discos da soul e r n´b americana. Mas o novo album dos Nightmares On Wax não é só isso! Esse foi o som que sempre definiu a banda de George Evelyn e Kevin Harper. O novo álbum é soul de Motown, é reggae das Caraíbas, é cultura negra, e acima de tudo um excelente passeio pelas raízes africanas.
A Word of Science celebrizou-se por apontar novos caminhos para a cena electrónica, através do assumido experimentalismo downtempo a servir de base aos elementos hip-hop e electro-funk. Smoker's Delight, define-se como álbum de hip hop instrumental, muito apegado aos samplers e sequenciadores. Carboot Soul, o terceiro álbum peca por não inovar, algo a que os Nightmares on Wax habituaram os seus seguidores. Em 2000, Evelyn convida os míticos De La Soul para participarem e produzirem o EP, The Sound of Nightmares on Wax. Segue-se o contributo para um volume da série DJ Kicks e finalmente, o quarto álbum de originais Mind Elevation.
A evolução pode ser lenta, ou até mesmo nem exisitir, mas subsiste o mérito de fazerem música tão coerente, vinda de influências tão dispares. E não se pede mais a quem tem esta visão da música. Pois como eles própios afirmam, a música de hoje em dia é inspirada no passado e nas vivências. E seguimos as tradições, bebendo da inspiração dos mais velhos, embarcando num ciclo perpétuo.
Mais um ábum a ser visitado nas galerias do Deep Café.

quarta-feira, março 15, 2006

Chillout ao pôr-do-sol...à beira-mar

1978 foi o ano que marcou a vida de 3 jovens, que partiram das Ilhas Canarias e poisaram em Ibiza, apaixonando-se pela vida nocturna de San António. Essa paixão, converte-se no desejo de abrir um bar que se afirme pela irreverência e dinamismo nocturno.
O local, situado no meio de rochas milenares banhadas pelos ventos e marés do Mediterrâneo torna-se objecto de trabalho do arquitecto Luis Guell. Na companhia dos amigos Ramón Guiral e Carlos Andrea, o especialista em interiores desenvolve um ambiente de nuvens, erotismo e sensualidade, adornado por um pôr-do-sol que todos os dias os surpreendia, e os convencia da necessidade de terminar este projecto.
A 20 de Janeiro de 1980 é inaugurado Café del Mar, em San António de Portmany.
A fama dissemina-se, e a presença de personalidades da cultura, da literatura, boémios e intelectuais gera uma agradável convivência, até ao mais vulgar plebeu...E o motivo é o culto a um pôr-do-sol muito especial. E como é claro, tudo isto se passava ao som da melhor música. Jazz, clássica e blues foram os antecessores do famoso Chillout que tornou esta casa ainda mais famosa. Estas músicas e o pôr-do-sol deram fama e uma notoriedade diferente a este lugar mágico.
Café del Mar assinalou em 2004, 25 anos de existência, sempre ao ritmo da melhor música electrónica. Ao longo dos anos foram editados àlbuns atrás de àlbuns que são trabalhos de inegável valor.
Apesar da genuína casa ser em Ibiza, as vicissitudes do negócio conduziram à abertura de franchisings em Gerona (Café del Mar Empuriabrava), Alicante (Café del Mar Altea), e Ilhas Canárias (Café del Mar Lanzarote). E para levar o espírito e filosofia mais longe, foram dadas festas nos mais variados pontos do globo:
•San Francisco (USA)
•Belgrado (Servia)
•Bruxelas (Bélgica)
•Dubai (EAU)
•Cairo (Egipto)
•Cannes (França)
•Moscovo (Russia)
•Atenas (Grécia)
•Roma (Itália)
•Riccione (Itália)
•Porto Empedocle (Itália)
•Palermo (Itália)
•Santander (Espanha)
•Almería (Espanha)
•Kuala Lumpur (Malásia)
•Bialobrzegi (Polónia)
•Argentina
•Uruguay
Mais que uma marca ou casa, Café del Mar tornou-se um estilo de vida, uma maneira de estar na urbe, filosofias antigas que se fundem na era-moderna e se reflectem no ambiente e na sociedade. O espírito é único, e a prova disso, são os mais de 4 milhões de pessoas que já passaram por Ibiza, e ao som das melhores melodias, assistiram nesta simbiose naturo-humana, a um dos 9132 pôres-do-sol registados até 20 de Junho de 2005. Nunca desprezem uma oportunidade de escutar um àlbum Café del Mar. Colectâneas do melhor Chillout e Lounge, tranformados em hinos sensoriais e que nos fazem divagar pelos montes de Katmandu, ou mergulhar nas ondas da Polinésia. E muito menos desprezem a oportunidade de entrar no mundo Café del Mar...